Avançar para o conteúdo principal

Leituras em destaque

Sabedoria Antiga

A Genizah do Cairo: o que Cambridge e Oxford confirmam

Uma genizah é, na tradição judaica, um espaço onde textos escritos deixam de circular sem, no entanto, serem destruídos, por respeito à escrita e sobretudo aos textos de carácter sagrado. A mais estudada de todas é a associada à Sinagoga Ben Ezra, no Cairo, cujo conteúdo acabou disperso, ao longo do século XX, por bibliotecas universitárias e museus em vários países. Este artigo baseia-se exclusivamente em três fontes institucionais: as páginas da Cambridge University Library, da Bodleian Library (Universidade de Oxford) e das Smithsonian Libraries. Por essa razão, alguns dados frequentemente repetidos noutros contextos sobre a génese desta coleção — nomeadamente a cronologia exacta da sua descoberta — não podem ser confirmados a partir do material aqui consultado, e são por isso tratados com reserva explícita e não apresentados como facto estabelecido. O que é preservado numa genizah e porque interessa aos historiadores A Cambridge University Library descreve a sua coleção Taylor-...

A Genizah do Cairo: o que Cambridge e Oxford confirmam

Uma genizah é, na tradição judaica, um espaço onde textos escritos deixam de circular sem, no entanto, serem destruídos, por respeito à escrita e sobretudo aos textos de carácter sagrado. A mais estudada de todas é a associada à Sinagoga Ben Ezra, no Cairo, cujo conteúdo acabou disperso, ao longo do século XX, por bibliotecas universitárias e museus em vários países.

Este artigo baseia-se exclusivamente em três fontes institucionais: as páginas da Cambridge University Library, da Bodleian Library (Universidade de Oxford) e das Smithsonian Libraries. Por essa razão, alguns dados frequentemente repetidos noutros contextos sobre a génese desta coleção — nomeadamente a cronologia exacta da sua descoberta — não podem ser confirmados a partir do material aqui consultado, e são por isso tratados com reserva explícita e não apresentados como facto estabelecido.

O que é preservado numa genizah e porque interessa aos historiadores

A Cambridge University Library descreve a sua coleção Taylor-Schechter como 'um refúgio para escritos' e 'um campo de batalha de livros' — uma caracterização da própria instituição, que convém ler como descrição evocativa e não como consenso académico formal. O que a fonte confirma com precisão é a composição do material: cerca de 193.000 fragmentos manuscritos, sobretudo em hebraico, judaico-árabe, aramaico e árabe.

O valor histórico atribuído pela própria Cambridge University Library a este conjunto assenta na sua diversidade: ao lado de textos literários e sagrados, a coleção preserva um grande número de cartas pessoais, escrituras legais e outros documentos do quotidiano. É essa combinação entre material religioso e documentação prosaica que, segundo a fonte, torna o conjunto um recurso sem paralelo para o estudo do judaísmo, da história judaica e da história económica e social mais alargada do Mediterrâneo e do Próximo Oriente durante a Idade Média e o início da Idade Moderna.

Fontes: [1]

Uma coleção dispersa: Cambridge, Oxford e o Smithsonian

Entre as fontes analisadas, a Cambridge University Library é a única que fornece uma quantificação exacta: os 193.000 fragmentos da coleção Taylor-Schechter. A Bodleian Library, em Oxford, mantém o seu próprio catálogo de manuscritos da Genizah do Cairo, com imagens digitalizadas de fragmentos bíblicos, de literatura rabínica antiga e de numerosos fragmentos litúrgicos — mas o texto consultado não indica um número total de peças nesta coleção.

A dispersão não se limitou ao Reino Unido. As Smithsonian Libraries preservam o registo de uma obra de 1927, 'Fragments from the Cairo Genizah in the Freer Collection', da autoria de Richard J. H. Gottheil e William Hoyt Worrell, publicada em associação com a Freer Gallery of Art, em Washington. Esta publicação documenta manuscritos judaico-árabes provenientes do Egipto e associados à Genizah do Cairo, o que evidencia que parte do material tinha chegado a instituições norte-americanas já na primeira metade do século XX.

É importante assinalar uma incerteza: as três fontes, em conjunto, não fornecem um total combinado de fragmentos. O número aproximado de 400.000 fragmentos, por vezes citado para o conjunto disperso por várias instituições mundiais, não é algo que estas três páginas confirmem ou quantifiquem — apenas o valor relativo a Cambridge (193.000) é dado com precisão numérica.

Fontes: [1], [2], [3]

Colecionadores e vias de entrada nos arquivos

Dentro do acervo de Cambridge, a própria Genizah Research Unit distingue subconjuntos com nomes próprios — a Jacques Mosseri Genizah Collection e a Lewis-Gibson Genizah Collection —, o que indica que os fragmentos não chegaram ao Reino Unido através de um único canal, mas de várias pessoas ou coleções posteriormente associadas ao acervo principal.

A fonte não detalha, contudo, as circunstâncias de aquisição destas subcoleções nem as biografias dos intervenientes. Por isso, este artigo limita-se a registar a existência dessas denominações como evidência de uma cadeia de custódia plural, sem reconstituir uma narrativa sobre como ou por que meios cada uma chegou a Cambridge.

Fontes: [1]

Conservação, catalogação e acesso digital

A Cambridge University Library indica que a Genizah Research Unit foi criada na década de 1970 para conduzir um programa alargado de conservação, catalogação e investigação sobre os manuscritos, um trabalho que a fonte descreve como dependente de apoio externo contínuo. A instituição publica ainda uma iniciativa mensal de divulgação ('Fragment of the Month') e refere a edição de uma introdução ilustrada de grande formato à coleção, da autoria de Nick Posegay e Melonie Schmierer-Lee.

Em termos de acesso público, a Cambridge Digital Library disponibiliza imagens de alta resolução e descrições de mais de 21.000 fragmentos, com novas peças carregadas mensalmente, segundo a própria fonte. A Bodleian Library, por seu turno, disponibiliza um catálogo próprio com imagens digitalizadas dos seus manuscritos da Genizah do Cairo. Vale notar uma distinção: o projeto de digitalização Polonsky Foundation, também referido pela Bodleian, abrange manuscritos hebraicos, gregos e incunábulos dos séculos XV em colaboração com a Biblioteca do Vaticano, não sendo apresentado na fonte como um projeto exclusivamente dedicado à Genizah.

Fontes: [1], [2]

O que estas fontes não permitem confirmar

Os elementos narrativos mais divulgados sobre a Genizah do Cairo — o ano exacto em que a câmara terá sido examinada, os intervenientes envolvidos e as circunstâncias físicas da descoberta numa sinagoga — não constam de nenhuma das três páginas institucionais usadas como fonte para este artigo. Da mesma forma, um total agregado de fragmentos para todas as instituições do mundo não é algo que estas fontes, em conjunto, declarem ou permitam calcular com rigor.

Por rigor metodológico, este artigo opta por não apresentar essas datas e episódios como factos verificados a partir do material consultado. Quem procure a cronologia detalhada da descoberta ou uma contagem global de fragmentos deverá recorrer a bibliografia académica dedicada e a registos de arquivo que vão além das páginas de apresentação de coleções aqui utilizadas.

Perguntas frequentes

A Genizah do Cairo contém apenas textos religiosos?

Não, segundo a Cambridge University Library. Ao lado de textos literários e sagrados, a coleção Taylor-Schechter preserva um grande número de cartas pessoais, escrituras legais e outros documentos do quotidiano, o que a torna também uma fonte para a história social e económica, e não apenas religiosa.

Quantos fragmentos existem ao todo?

Apenas a Cambridge University Library fornece um número preciso: cerca de 193.000 fragmentos na coleção Taylor-Schechter. A Bodleian Library, em Oxford, e as Smithsonian Libraries também guardam material associado à Genizah do Cairo, mas as fontes consultadas não indicam a dimensão exacta dessas coleções nem um total combinado entre instituições.

É possível consultar imagens dos fragmentos online?

Sim. A Cambridge Digital Library disponibiliza imagens de alta resolução e descrições de mais de 21.000 fragmentos, com novas peças adicionadas mensalmente. A Bodleian Library mantém igualmente um catálogo próprio com imagens digitalizadas dos manuscritos da Genizah do Cairo que possui.

Fontes consultadas

Comentários

Publicidade

Mensagens populares deste blogue

Manuscritos do Mar Morto: o que são e por que importam

O que são os Manuscritos do Mar Morto Os Manuscritos do Mar Morto são um conjunto de milhares de fragmentos e alguns rolos quase completos, encontrados sobretudo em onze cavernas junto ao sítio de Qumran, perto do Mar Morto. A maior parte está escrita em hebraico, cerca de 15% em aramaico e uma pequena parte em grego; os materiais são principalmente pergaminho, havendo também papiro e um rolo gravado em cobre. Os textos de Qumran datam aproximadamente do século III a.C. ao século I d.C., antes da destruição do Segundo Templo em 70 d.C. Manuscritos encontrados noutros pontos do deserto da Judeia alargam esse período, indo do século VIII a.C. ao século XI d.C. Fontes: [1] A descoberta em Qumran Segundo o relato conservado pela Autoridade das Antiguidades de Israel, em 1947 um jovem pastor beduíno da tribo Ta'amireh, à procura de um animal perdido, encontrou junto a Qumran uma caverna com jarros de barro que continham rolos antigos. Os primeiros rolos passaram por negociantes de...

Melquisedeque: o rei-sacerdote entre a Bíblia e Qumran

Melquisedeque aparece apenas uma vez em Génesis, num episódio breve e discreto, mas essa aparição fugaz foi suficiente para inspirar reflexões posteriores num salmo, na Epístola aos Hebreus e noutros autores judaicos, alcançando com o tempo contornos messiânicos. Este artigo acompanha esse percurso, procurando distinguir sempre o que o texto de Génesis efectivamente afirma daquilo que gerações posteriores nele leram, desde a Judeia do Segundo Templo até à arte cristã. Um encontro fugaz em Génesis 14 O relato de Génesis 14:18-20 apresenta a figura de forma sucinta: rei de Salém e sacerdote de "El Elyon", título divino duplo que significa "Deus Altíssimo". É nesse papel que Melquisedeque sai ao encontro de Abrão, recém-vitorioso numa batalha, trazendo-lhe pão e vinho e abençoando-o em nome de El Elyon. Abrão responde associando essa divindade a Yahweh e entregando-lhe um décimo dos despojos de guerra, gesto que a fonte interpreta como reconhecimento da legitimidad...