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A Genizah do Cairo: o que Cambridge e Oxford confirmam

Uma genizah é, na tradição judaica, um espaço onde textos escritos deixam de circular sem, no entanto, serem destruídos, por respeito à escrita e sobretudo aos textos de carácter sagrado. A mais estudada de todas é a associada à Sinagoga Ben Ezra, no Cairo, cujo conteúdo acabou disperso, ao longo do século XX, por bibliotecas universitárias e museus em vários países. Este artigo baseia-se exclusivamente em três fontes institucionais: as páginas da Cambridge University Library, da Bodleian Library (Universidade de Oxford) e das Smithsonian Libraries. Por essa razão, alguns dados frequentemente repetidos noutros contextos sobre a génese desta coleção — nomeadamente a cronologia exacta da sua descoberta — não podem ser confirmados a partir do material aqui consultado, e são por isso tratados com reserva explícita e não apresentados como facto estabelecido. O que é preservado numa genizah e porque interessa aos historiadores A Cambridge University Library descreve a sua coleção Taylor-...

Melquisedeque: o rei-sacerdote entre a Bíblia e Qumran

Melquisedeque aparece apenas uma vez em Génesis, num episódio breve e discreto, mas essa aparição fugaz foi suficiente para inspirar reflexões posteriores num salmo, na Epístola aos Hebreus e noutros autores judaicos, alcançando com o tempo contornos messiânicos.

Este artigo acompanha esse percurso, procurando distinguir sempre o que o texto de Génesis efectivamente afirma daquilo que gerações posteriores nele leram, desde a Judeia do Segundo Templo até à arte cristã.

Um encontro fugaz em Génesis 14

O relato de Génesis 14:18-20 apresenta a figura de forma sucinta: rei de Salém e sacerdote de "El Elyon", título divino duplo que significa "Deus Altíssimo". É nesse papel que Melquisedeque sai ao encontro de Abrão, recém-vitorioso numa batalha, trazendo-lhe pão e vinho e abençoando-o em nome de El Elyon. Abrão responde associando essa divindade a Yahweh e entregando-lhe um décimo dos despojos de guerra, gesto que a fonte interpreta como reconhecimento da legitimidade de Melquisedeque.

Quanto ao próprio nome, não é seguro se "Melquisedeque" — que significa "rei de justiça" — designa uma pessoa, um título ou uma simples descrição. A identificação de Salém com a cidade mais tarde conhecida como Jerusalém, hoje maioritária entre os intérpretes, apoia-se num verso do Salmo 76 (76:2), mas não é uma afirmação explícita do próprio texto de Génesis — é antes uma leitura interpretativa posterior.

A reunião das funções régia e sacerdotal numa única figura não seria estranha no contexto do Próximo Oriente Antigo, mas destoava da prática israelita posterior, que separava a realeza — ligada à linhagem de Judá e à casa de David — do sacerdócio, reservado à tribo de Levi.

Fontes: [1]

O Salmo 110 e a origem da expectativa messiânica

Só séculos depois do episódio de Génesis a figura reaparece: um salmo atribuído a David declara que o líder militar designado por Yahweh como rei seria também "sacerdote para sempre, à maneira de Melquisedeque" (Salmo 110:4). O próprio texto do salmo não explica o que esta fórmula significava no seu contexto original.

No século I a.C., segundo o testemunho de Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas 16.163), os hasmoneus invocaram Melquisedeque como precedente para justificar sacerdotes que exerciam também autoridade régia.

Fontes: [1]

De precedente bíblico a figura celestial: o Melquisedeque de Qumran

Autores associados aos Manuscritos do Mar Morto foram mais longe do que o Salmo 110, ao retratar Melquisedeque como membro angélico do conselho divino. No texto conhecido como 11QMelquisedeque (11Q13), a par de referências em 4QAmram, atribui-se-lhe um papel activo na era messiânica: julgar, redimir, fazer expiação, libertar cativos e reinar.

O manuscrito 11Q13 integra a colecção mais vasta dos Manuscritos do Mar Morto, hoje conservada e disponibilizada digitalmente pela Autoridade de Antiguidades de Israel, através da Biblioteca Digital Leon Levy dos Manuscritos do Mar Morto. A página de arquivo dedicada a este manuscrito confirma a sua existência enquanto peça catalogada da colecção, sem disponibilizar aqui uma transcrição ou análise detalhada do seu conteúdo textual.

Importa assinalar os limites do que se pode afirmar com as fontes disponíveis: não é possível, a partir delas, precisar a datação exacta da composição de 11Q13 nem reconstituir a totalidade do texto. O que resulta claro é apenas a direcção geral da reinterpretação — de figura histórica breve e discreta em Génesis a agente celestial com funções escatológicas em Qumran.

Fontes: [1], [2]

Hebreus e o sacerdócio de Jesus "segundo a ordem de Melquisedeque"

Os evangelhos registam que o próprio Jesus terá identificado o Salmo 110 como texto messiânico (Mateus 22:41-46; Marcos 12:35-37; Lucas 20:41-45); mais tarde, segundo Actos 2:33-36, o apóstolo Pedro apontou Jesus como o messias a que o salmo se referia.

Para justificar a realeza de Jesus, os evangelhos recorrem à sua ascendência na tribo de Judá. A Epístola aos Hebreus segue outro caminho para lhe atribuir também legitimidade sacerdotal, apoiando-se em Melquisedeque como precedente de um sacerdócio fora da linhagem levítica: explora o silêncio de Génesis sobre a genealogia da figura — "sem pai, sem mãe, sem genealogia" (Hebreus 7:3) — para argumentar que a ascendência levítica não era condição indispensável ao sacerdócio.

O mesmo texto recorre ainda ao episódio do dízimo entregue por Abrão para defender que o sacerdócio de Melquisedeque precede o de Levi, nascido apenas mais tarde na descendência de Abrão (Hebreus 7:4-10). Construía-se assim a possibilidade de Jesus ser simultaneamente rei na linha de Judá e sacerdote segundo o modelo de Melquisedeque — associação reforçada pelo facto de a sua morte e ressurreição terem ocorrido em Jerusalém, a mesma região que a tradição liga ao reinado sacerdotal de Melquisedeque.

Fontes: [1]

A receção artística: o encontro entre Abraão e Melquisedeque

A cena de Génesis 14 tornou-se também motivo iconográfico na arte cristã. Um exemplo documentado é a pintura a óleo sobre painel "The Meeting of Abraham and Melchizedek" (O Encontro de Abraão e Melquisedeque), de Peter Paul Rubens, datada de cerca de 1626, com 65,5 por 82,4 centímetros, hoje na National Gallery of Art.

A escolha deste episódio por Rubens documenta um caso de recepção artística do tema bíblico, mas as fontes aqui reunidas não permitem ir além deste exemplo único: não sustentam afirmações sobre a frequência ou a variedade de representações de Melquisedeque ao longo da história da arte, nem sobre a persistência geral do tema para além deste caso específico.

Fontes: [1]

Perguntas frequentes

Melquisedeque foi uma figura histórica ou uma personagem simbólica?

As fontes consultadas não permitem resolver esta questão de forma definitiva. Génesis apresenta-o como uma personagem que interage com Abrão dentro de um relato narrativo, mas o texto não fornece elementos que confirmem a sua existência histórica fora dessa narrativa.

O que significa "sacerdote para sempre, à maneira de Melquisedeque" no Salmo 110?

A própria fonte consultada reconhece que o sentido exacto desta expressão no contexto original do salmo permanece por esclarecer. Sabe-se apenas que, mais tarde, hasmoneus, autores de Qumran e autores do Novo Testamento a leram como legitimação de um sacerdócio-realeza fora da linhagem de Levi.

Qual é a relação entre o texto de Qumran 11Q13 e 4QAmram?

Segundo a síntese consultada, ambos os textos são associados à expansão da figura de Melquisedeque como agente do conselho divino com funções na era messiânica — julgar, redimir, fazer expiação, libertar cativos e reinar. As fontes disponíveis não detalham, porém, a relação directa entre os dois documentos.

Fontes consultadas

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