O que são os Manuscritos do Mar Morto
Os Manuscritos do Mar Morto são um conjunto de milhares de fragmentos e alguns rolos quase completos, encontrados sobretudo em onze cavernas junto ao sítio de Qumran, perto do Mar Morto. A maior parte está escrita em hebraico, cerca de 15% em aramaico e uma pequena parte em grego; os materiais são principalmente pergaminho, havendo também papiro e um rolo gravado em cobre.
Os textos de Qumran datam aproximadamente do século III a.C. ao século I d.C., antes da destruição do Segundo Templo em 70 d.C. Manuscritos encontrados noutros pontos do deserto da Judeia alargam esse período, indo do século VIII a.C. ao século XI d.C.
Fontes: [1]
A descoberta em Qumran
Segundo o relato conservado pela Autoridade das Antiguidades de Israel, em 1947 um jovem pastor beduíno da tribo Ta'amireh, à procura de um animal perdido, encontrou junto a Qumran uma caverna com jarros de barro que continham rolos antigos. Os primeiros rolos passaram por negociantes de antiguidades, entre eles Kando e Salahi, chegando depois ao Arcebispo Samuel e ao professor Eliezer Sukenik, da Universidade Hebraica, que reconheceu tratar-se de manuscritos hebraicos muito antigos.
Entre 1949 e 1956, equipas de arqueólogos, entre os quais Roland de Vaux e Gerald Lankester Harding, e também beduínos, localizaram mais dez cavernas na região. No total foram recolhidos fragmentos de mais de 900 manuscritos diferentes, sendo a Caverna 4 a mais rica, com fragmentos de cerca de 500 rolos distintos.
Fontes: [2]
A diversidade dos textos
Cerca de 230 dos manuscritos são cópias de livros que hoje integram a Bíblia Hebraica, existindo fragmentos de praticamente todos os livros à exceção de Ester. Alguns foram copiados em escrita paleo-hebraica, mais antiga que a usada habitualmente na época. Muitos destes textos aproximam-se do Texto Massorético posterior, mas outros apresentam diferenças, acrescentos ou supressões, o que sugere que, no período do Segundo Templo, não existia ainda uma ideia fixa e unificada de um cânone bíblico fechado.
Os manuscritos não-bíblicos incluem comentários, hinos, textos de sabedoria, escritos apocalípticos e calendários religiosos. Alguns, como o Livro dos Jubileus, já eram conhecidos por traduções antigas antes de aparecerem em hebraico em Qumran. Cerca de um quarto destes textos não-bíblicos é classificado como "sectário", por parecer refletir as regras e crenças de uma comunidade específica. Durante décadas associou-se este material aos essénios, um dos grupos religiosos judaicos da época, mas essa ligação é hoje discutida entre especialistas, sem consenso total sobre que comunidades os textos representam.
Fontes: [1]
Além de Qumran: outros sítios e períodos
O termo "Manuscritos do Mar Morto" cobre também achados feitos fora de Qumran, num intervalo temporal muito mais amplo. Incluem-se papiros samaritanos em aramaico de Wadi Daliyeh, do século IV a.C., manuscritos árabes de Khirbet Mird dos séculos VII-VIII d.C., documentos de Massada e textos das chamadas cavernas de refúgio ligadas à Revolta de Bar Kokhba (132-135 d.C.), entre os quais cartas atribuídas ao líder da revolta e um rolo dos Doze Profetas Menores em grego.
Os rolos bíblicos encontrados nessas cavernas de refúgio aproximam-se muito do Texto Massorético, o que é interpretado como indício de que o texto bíblico já estava relativamente estabilizado por volta do século II d.C.
Fontes: [1]
Do achado à publicação científica
Depois da descoberta inicial, os fragmentos foram reunidos e estudados no Museu Rockefeller, em Jerusalém. Durante cerca de 40 anos, a análise ficou concentrada num pequeno grupo de investigadores, o que atrasou significativamente a publicação. Nos anos 1990, a Autoridade das Antiguidades de Israel alargou a equipa a cerca de cem investigadores internacionais, sob a direção do professor Emanuel Tov, e por volta de 2001 a maior parte das edições oficiais estava publicada.
Fontes: [2]
Por que importam, e os limites do que se sabe
Os Manuscritos do Mar Morto são considerados relevantes porque constituem os testemunhos conhecidos mais antigos de textos bíblicos, mais de mil anos anteriores a manuscritos bíblicos anteriormente disponíveis, e permitem comparar variantes textuais ao longo do tempo. Mostram ainda a diversidade de escritos religiosos em circulação entre comunidades judaicas do período do Segundo Templo.
Importa distinguir o que está bem documentado do que continua em aberto: a datação, os locais das cavernas e a existência de textos bíblicos e não-bíblicos são dados verificáveis pela investigação arqueológica e textual. Já a identificação exata da comunidade ou comunidades responsáveis pelos textos sectários, a sua relação com os essénios e a interação entre diferentes grupos permanecem objeto de debate entre especialistas, sem uma conclusão unânime.
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